sábado, 27 de agosto de 2016

Salve, prudente Virgem

 Após os versículos iniciais, comentados em Matinas, o presente Hino canta as honras da Virgem Imaculada, santa desde o primeiro instante de seu seis isenta de toda mancha de pecado.
Maria Santíssima, nesta Hora, será louvada como a única criatura digna de ser Mãe de Deus, e que assim se constitui como a porta pela qual, obrigatoriamente, entram todos os justos no Céu, como afirma o santo cartuxo: “Quem se salvará? Quem conseguirá reinar no paraíso? Aqueles, sem dúvida, por quem tiver rogado a Mãe de misericórdia”.
Nossa Senhora será cultuada como a Restauradora da Ordem: “O que fez Eva, associada a Adão, para a ruína do gê

sábado, 30 de julho de 2016

Para que, venerando agora, afetuosamente, a vossa imaculada Conceição

... para que, venerando agora, afetuosamente, a vossa imaculada Conceição, consiga depois, a coroa da eterna bem-aventurança.
A graça da perseverança final
Encerrando, rogamos o dom da perseverança final e nosso ingresso na celeste beatitude.
“Maria, porque é nossa Mãe, deseja sobretudo a eterna salvação de seus filhos, pelos quais intercede.
“A vida presente passa, com felicidades, com infelicidades, com tropeços; ela um dia acaba, e é a eternidade que fica. Por isso, o mais importante é salvarmos nossas almas, para as quais a Santíssima Virgem obtém de Deus graças e virtudes.
“Peçamos a Ela, Rainha dos Corações, por cujas mãos Deus governa a História e o mundo, que mova nossas almas segundo os seus desígnios, e nos alcance a eterna beatitude” 
Portanto, unamos nossas vozes à do grande São Bernardo, que assim se dirigia à Santa Mãe de Deus: “Ó bendita Virgem, que achastes a graça, Mãe da vida, Mãe da salvação! Por meio de Vós chegamos a vosso Filho, por Vós nos receba O que por Vós se deu a nós. Escuse diante d’Ele vossa integridade as culpas de nossa corrupção, e vossa humildade tão grata a Deus alcance o perdão de nossa vaidade. A vossa copiosa caridade cubra a multidão de nossos pecados, e vossa fecundidade gloriosa nos dê a fecundidade das boas obras. Senhora nossa, Medianeira nossa e nossa Advogada, reconciliai-nos com vosso Filho.
“O Bendita, pela graça que achastes, pelo privilégio que merecestes, pela misericórdia que engendrastes, fazei que Aquele que por meio de Vós se dignou tornar-se partícipe de nossa enfermidade e miséria, por vossa intercessão também nos faça participantes de sua glória e bem-aventurança!” 
Por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo, Senhor nosso, que com o Padre e o Espírito Santo vive e reina em unidade perfeita, Deus, pelos séculos do séculos. Amém.
Necessidade de um mediador entre Deus e os homens
A intercessão de Maria, embora onipotente, está subordina à de Nosso Senhor Jesus Cristo, como acima vimos. Razão pela qual a Santa Igreja encerra as orações de sua liturgia invocando a mediação do Filho de Deus.
Explica Fr. Luís de Granada que, depois da queda de Adão, “a primeira e maior necessidade que tínhamos era a de sermos restituídos à antiga amizade e graça de nosso Criador, que havíamos perdido por aquele comum pecado pelo qual, como diz o Apóstolo (Ef. II, 3), os homens nasciam filhos da ira. E como a amizade e graça de Deus para com suas criaturas seja a primeira causa de todos os bens das mesmas, faltando esta, faltavam também os benefícios que desta amizade procediam. [...]
“Estando, pois, os homens nesta desgraça com seu Rei e era necessário o que geralmente se faz quando as partes desavença: um bom e terceiro mediador que as reduza à concórdia.
O Homem-Deus, Mediador perfeitíssimo
“Este não podia ser mais conveniente que o mesmo Filho de Deus humanado. [...] Pois, quem mais fiel para com Deus do que o próprio Deus? E quem mais fiel para com o homem do que o próprio homem? E quem mais amigo de ambas as naturezas do que aquele que as tinha em si reunidas? De maneira que os dois negócios tomava por seus: o de Deus, porque era Deus verdadeiro, e o do homem, porque era verdadeiro homem. Portanto, para este fim nenhuma coisa se podia, não digo ordenar, mas nem imaginar nem desejar mais a propósito. [...]
‘Ademais, quem havia de ter tão grandes e tão gerais amizades, quem havia de apagar a chama deste ódio, quem havia de fazer amigos de tantos inimigos como eram todos os séculos presentes, passados e vindouros, necessariamente havia de ser amicíssimo e gratíssimo aos olhos de Deus, para que com a abundância de suas graças se desfizessem tantas desgraças, e com a grandeza de sua amizade se olvidas sem tantas inimizades. [...]
“Quem podia ser para isto mais conveniente que o unigénito Filho de Deus, infinitamente amado de seu Eterno Pai? A este, pois, deu-nos a imensa bondade de Deus por mediador e reconciliador, [...J por quem alcançamos a redenção e perdão de nossos pecados”.
V. Bendigamos ao Senhor
R. Demos graças a Deus.
Gratidão a Deus por ter criado Nossa Senhora
Depois de se repetirem os versículos com os quais invocamos, novamente, a intercessão da Santíssima Virgem, externamos nosso entranhado e filial reconhecimento a Deus.
É exortação constante dos autores eclesiásticos que “sempre e por tudo devemos dar graças a nosso Criador”  “não apenas pelos grandes benefícios, senão também pelos pequenos”
“Feliz o homem — exclama São Bernardo — que a cada um dos bens da graça volta-se Àquele em quem está a plenitude das graças; e, ao mostrar-nos agradecidos pelos favores recebidos, nos dispomos a merecer graças ainda maiores. Somente nossa ingratidão nos impede em absoluto de progredir na vida perfeita, pois, reputando o doador que em certo modo se frustrou do que o ingrato recebeu, cuida-se doravante de não dar tanto ao mesmo para tanto não perder.
“Feliz, pois, o que rende não pequenas graças, ainda pelos mínimos benefícios.
“Portanto, encareço-vos, irmãos, [...) que nos humilhemos mais e mais, sob a poderosa mão de Deus, e que procuremos estar longe deste grande e péssimo vício da ingratidão, para que, ocupando-nos com toda devoção na ação de graças, atraiamos sobre nós a graça de nosso Deus, a única que pode salvar nossas almas. E não só nos mostremos agradecidos com língua e palavra, mas com obra e verdade, porque não é tanto a verbosidade como a ação de graças o que exige de nós o doador de todas as graças, Nosso Senhor, que é bendito pelos séculos”
É fora de dúvida que um dos maiores benefícios pelos quais devemos gratidão e louvor ao Altíssimo, é a existência de sua e nossa Imaculada Mãe. Por isso, digamos com São João Eudes: “Ó grande Deus, que sempre sejais bendito por vossos eternos planos de nos dar este imenso tesouro! [...] Graças infindas vos sejam dadas, ó adorabilíssima Trindade, por todos os favores com que haveis enriquecido a esta Virgem incomparável. [...] Que o Céu e a Terra, os Anjos e os homens, e todas as criaturas por isto Vos bendigam e incessantemente Vos glorifiquem!” 96
As almas dos fiéis defuntos por misericórdia de Deus descansem em paz. Amém.
Com esta última súplica, lembramo-nos das almas que se encontram no Purgatório, para as quais solicitamos, a rogos de Maria, o perpétuo descanso.
Maria deseja que aliviemos as almas do Purgatório
“A Bem-aventurada Virgem — comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — alcança também graças para as almas que se acham no Purgatório, onde expiam os pecados que cometeram nesta vida. Por meio de suas súplicas, Ela abrevia a punição dessas almas, suaviza-a e a alivia de mil modos” 97,
Outra não é a afirmação de Santo Afonso de Ligório, segundo o qual, “pelos merecimentos de Maria, não só se tornam mais leves, mas também mais breves as penas das almas do Purgatório, apressando-se, com a intercessão da Santíssima Virgem, o tempo da expiação. Basta que Ela formule um pedido neste sentido” 98,
Ademais, sobremaneira estima a Mãe de Deus nossas ações em favor dos membros da Igreja Padecente.
A esse respeito escreve o Pc. Jourdain:
“As almas do Purgatório são caras à Santíssima Virgem; são almas predestinadas e santas, almas que muito A amam e que, em sua maior parte, A serviram com fidelidade durante sua vida sobre a Terra. Nas almas do Purgatório Maria vê as filhas bem-amadas do Padre Eterno, as esposas de seu Divino Filho, os templos do Espírito Santo, as imagens de Deus que brilharão um dia no Céu com maravilhoso fulgor. Ela vê nessas almas o preço do Sangue de seu adorável Jesus, as flores imortais que ornarão sua própria coroa durante a eternidade. Nelas, Maria vê seus próprios filhos. [...]
Quem reza pelas almas do Purgatório prepara seu próprio sufrágio
“Concorrendo para o alívio dessas almas, praticamos numerosos atos de virtude e preparamos nosso próprio socorro para o tempo em que estivermos no purgatório. [...] Bem raros são aqueles que vão diretamente ao Céu, ao saírem desta vida. Portanto, se salvarmos nossa alma, a salvaremos passando pelo fogo, segundo a palavra do Apóstolo (I Cor. XIII, 15). [...]
Maria, modelo de gratidão a Deus
Em sua admirável obra dedicada à Virgem Santíssima, o Fe. Jourdain recolhe estas palavras do Pe. Kiselio, S. J. (sec. XVII):
“Ao ouvir Isabel proclamá-La bendita entre todas as mulheres, e render testemunho à divindade do bendito fruto de suas entranhas, a Bem-aventurada Virgem Maria exprime os sentimentos de que está penetrada, no admirável cântico, o mais belo que contêm nossos Santos Livros: Magnificat anima mea Dominum — »Minha alma glorifica o Senhor». [...]
“Como no dia da Anunciação, Ela se diz sua humilde serva; proclama que Ele é o Deus que salva, o Deus onipotente, o Deus santo. Ela cumpre o que recomenda o Sábio: Bendizei ao Senhor e exaltai-O tanto quanto puderdes”. Transportada de júbilo e de reconhecimento, Maria  rende graças a Deus por seus benefícios. [...]
“Que o exemplo da Virgem nos ensine como devemos, por nossa parte, glorificar a Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor e sua Bem-aventurada Mãe.
“Porventura não fez Deus também em nós grandes coisas, por sua onipotência? Não nos recolheu Ele e nos tirou do abismo de nossa miséria? Seu nome não é igualmente santo para nós e cheio de suavidade? Não nos aceitou como filhos em sua misericórdia? Não deu de comer àqueles que tinham fome, não consolou os aflitos e exaltou os humildes? Que nossa alma glorifique, pois, ao Senhor, e que nosso espírito se alegre em Deus nosso Salvador!
“Sim, é com alegria que convém, a exemplo de Maria, bendizer ao Senhor, testemunhar-Lhe nossa gratidão e celebrar sua glória!”
“Mas, se durante nossa vida nos aplicamos em sufragar as almas do Purgatório, [...] não devemos temer de ser abandonados: o que fizemos pelos outros, ser-nos-á devolvido ao cêntuplo. Maria não permitirá que sejamos vítimas de nossa generosidade, e a nossa dívida, fosse ela de dez mil talentos, logo será paga. [...]
“Roguemos, pois, pelas almas do Purgatório. Assim praticamos o bem, alegramos o coração de Nossa Senhora, enriquecemos o tesouro de nossos méritos e preparamos uma entrada mais fácil na mansão da eterna beatitude”


segunda-feira, 20 de junho de 2016

No seu tabernáculo A fez habitar

R. No seu tabernáculo A fez habitar
Maria no eterno pensamento divino
Pode-se dizer que no tabernáculo de Deus habitou Maria, em virtude da excelência de sua eterna predestinação.
“A Santíssima Virgem, na qual tudo é maravilha, antes de aparecer neste mundo, na realidade de sua vida terrena, teve, por singular privilégio, uma existência antecipada. Deus concedeu-Lhe a honra da pré-existência.
“Ora, a forma mais esplêndida desta pré-existência é, certamente, aquela de que Maria gozou no seio de Deus, antes de todos os tempos. Desde toda a eternidade, esteve Ela no pensamento de Deus, vivia no coração de Deus, em razão de sua incomparável predestinação.
“Sem dúvida, todas as criaturas, que foram e que serão, vivem desde toda a eternidade no pensamento de Deus, como em seu arquétipo vivo e infinito, posto que em Deus não há nem antes, nem depois. Porém, segundo nossa maneira de compreender, no pensamento de Deus vive, de modo particular e especialíssimo, a Santíssima Virgem”84.
V Protegei Senhora, a minha oração.
R. E chegue até Vós o meu clamor
Maria tudo obtém de Jesus Cristo, em nosso favor

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Para Mãe o Senhor Vos destinou


Comentários ao Pequeno Ofício da Imaculada

Para Mãe o Senhor Vos destinou
Do que os mares, a Terra e Céus criou

Predestinação de Nossa Senhora
Remontam à eternidade os incomparáveis privilégios concedidos pelo Criador à Virgem Santíssima, com sua predestinação à augusta missão de ser Mãe de Deus.
Os Padres da Igreja, fiéis intérpretes das Sagradas Escrituras, reconheceram a predestinação de Maria à maternidade divina.
Santo Agostinho diz que antes de Nosso Senhor Jesus Cristo nascer de Maria, Ele A conheceu e predestinou para ser sua Mãe 57.
E São João Damasceno, dirigindo-se à Virgem Maria: “Porque o decreto de predestinação nasce do amor como de sua primeira raiz, Deus, soberano mestre de todas as coisas, que Vos sabia previamente digna de seu amor, Vos amou; e, porque Vos amava, Vos predestinou” 58
“Ó Virgem — exclama São Bernardino de Siena — Vós fostes predestinada no pensamento divino antes de toda criatura, para dar a vida ao mesmo Deus que quis se revestir de nossa humanidade”59 .
Santo André de Creta, em seu discurso sobre a Assunção de Maria, exprime o mesmo pensamento: “Esta Virgem é a manifestação dos mistérios da incompreensibilidade divina, o fim ao qual Deus se propôs antes de todos os séculos” 6o.
E São Bernardo: “Foi enviado o Anjo Gabriel a uma virgem (Lc. I, 26-27). Virgem no corpo, virgem na alma; [...] não encontrada ao acaso ou sem especial providência, mas escolhida desde todos os séculos, conhecida na presença do Altíssimo que A predestinou para [ser um dia sua Mãe; guardada pelos Anjos, designada antecipadamente pelos antigos Padres, prometida pelos profetas”61 .
Excelências da predestinação de Maria
Acompanhemos a exposição que deste sublime mistério nos faz o santo historiador da infância de Maria:
“A predestinação da Santíssima Virgem está enobrecida e realçada com várias e assinaladas mercês. E a primeira é que tem sua origem e princípio no infinito amor do Padre Eterno para com seu Filho Jesus, no amor imenso para com Maria sua Filha muito amada, e em sua inconcebível caridade para conosco.
“Porque o amor incompreensível que este adorável Pai tem a seu Filho, levou-O a escolher para o mesmo, desde toda a eternidade, uma Mãe que fosse digna d’Ele. [..] O amor inefável deste santo Pai para com sua Filha Maria, que é o primeiro objeto de seu amor depois de seu amado Filho, obrigou-O a predestiná-La em seu eterno conselho para que fosse a Mãe, a Aia e a Nutriz de seu Verbo Encarnado, a Rainha dos Anjos, a Soberana do Céu e da Terra, a Imperatriz do universo. [...]
“A caridade sem igual deste Pai de misericórdias para conosco, fê-Lo conceber desde toda a eternidade o desígnio de fazer nascer na Terra a esta incomparável Virgem, para por meio d’Ela nos dar um Redentor, e associá-La ao mesmo, na obra de nossa reparação. Eis a origem desta eterna eleição, mercê que A eleva infinitamente acima das predestinações de todos os escolhidos.
Perfeita semelhança entre a predestinação de Jesus a de Maria
“Outra assinalada vantagem da predestinação de Maria é a perfeita semelhança que tem com a predestinação de Jesus, da qual é acabada imagem. Porque como Jesus é escolhido por Deus desde toda a eternidade para ser o começo de seus caminhos (Prov. VIII, 22) e de seus desígnios, quer dizer, a primeira em excelência e a mais maravilhosa obra de suas mãos; assim o Espírito Santo, falando pelos lábios da Igreja, pronuncia estas mesmas palavras — Princípio dos caminhos do Senhor — em louvor desta incomparável Filha que se chama Maria. [...]
“Como unicamente Jesus foi escolhido entre milhares (Cânt. V, 10), isto é, entre todos os filhos de Adão, para ser unido hipostaticamente à pessoa do Verbo Eterno, assim Maria é a única eleita entre milhares, ou seja, entre todas as filhas de Eva, para ser associada da maneira mais íntima e elevada com o Verbo Encarnado. «Vossa eleição, ó divina Maria, diz São Bernardo, e vossa predestinação são semelhantes às do sol quer dizer; às do sol eterno que criou o sol temporal. Porque Ele é escolhido entre milhares de homens, Vós, entre milhares de mulheres». Jesus é a maravilha das obras de seu Pai, e Maria é a obra-prima dos milagres de Jesus. [...]
“A excelência da predestinação de nossa santa Maria para a divina maternidade, se manifesta claramente pelas grandes e maravilhosas coisas que Deus n’Ela operou, quando A fez nascer milagrosamente de uma mãe que naturalmente não podia conceber, quando A preservou do pecado original em sua Imaculada Conceição, quando A encheu de luz e de graça desde o primeiro instante de sua vida, quando cumulou todo o universo de gozo em seu nascimento, quando A honrou com o admirável nome de Maria, e quando fez n’Ela e por Ela outras muitas maravilhas que não convêm senão à grandeza de uma Mãe de Deus.
“E como o fim da predestinação de Jesus é no-Lo dar por nosso Salvador, nosso mediador entre Deus e nós, nosso Pai, nosso exemplo, nosso tesouro, nossa glória, nosso paraíso, nosso espírito, nosso coração, nossa vida, nosso tudo; assim o fim da predestinação de Maria é no-La dar como cooperadora de seu Filho em nossa Redenção, para ser nossa medianeira entre Ele e nós, para ser nossa Mãe, nossa preceptora, nossa vida, nosso consolo, nossa esperança, para ser nossa luz nas trevas, nossa força em nossas debilidades, nosso socorro em nossas misérias, nosso refúgio em todas as nossas necessidades, e nosso modelo em nossos hábitos e ações.
“Acrescentaria ainda ao dito, para fazer ver a perfeita semelhança que há entre a predestinação do Homem-Deus e a de sua Mãe, que, como aquela é o primeiro princípio de todas as demais predestinações dos verdadeiros filhos de Deus, esta é de uma maneira parecida a causa segunda. «Ninguém se salva a não ser por Vós, o Santíssima Virgem», disse São Germano, Patriarca de Constantinopla. [...]
Jesus e Maria tiveram uma mesma predestinação
“Todas estas coisas fazem ver que a predestinação de nossa divina Maria é uma perfeita imagem da de Jesus. Contudo, vou mais além, e me atrevo a dizer que há tão estreita união entre estas duas predestinações que, assim como o Filho e a Mãe não são mais que uma mesma coisa, não tendo mais que uma alma, um coração e uma vontade, assim, de alguma maneira, tiveram uma só predestinação. Porque não se encontrando Jesus nos eternos desIgnios de Deus senão como Filho de Maria, e não tendo neles lugar Maria senão como Mãe de Jesus, pode-se dizer que não têm mais que uma mesma predestinação.
“Donde a Igreja e os santos doutores aplicarem à Mãe do Salvadoras mesmas palavras que o Espírito Santo emprega para nos expressar a eleição e predestinação eterna de seu Filho: «Desde a eternidade tenho eu o principado de todas as coisas. O Senhor me teve consigo no começo de suas obras» (Prov. VIII, 22)” 62
“Tal é, portanto, a preparação eterna da Santíssima Virgem, tal é a sua predestinação.
“Bem exposta e bem compreendida, esta eleição encerra todos os esplendores da Teologia de Maria. Preeminência, incomparáveis grandezas, cooperação nas obras divinas, plenitude de todas as graças e distribuição aos homens de todos os méritos da Encarnação do Verbo, da Redenção; tudo, até a glória dos Anjos, a esperança dos justos, o triunfo dos Santos, os deveres dos cristãos e sua ilimitada confiança, deriva desta predestinação como a consequência do princípio, como o efeito da causa” 63

Preservou Ele a vossa Conceição, da mancha que nós temos em Adão

A Imaculada Conceição
“Sessenta são as rainhas, e oitenta as esposas de segunda ordem, e inúmeras as donzelas; uma só, porém, é a pomba minha e a minha perfeita” (Cânt. VI, 7-8).
Aplicando a Nossa Senhora essa passagem do Cântico dos Cânticos, comenta São Tomás de Villanueva: “É única; se buscas outra pomba, não a encontrarás. É única, sozinha e sem mancha. É a única que não esteve sujeita à lei da mancha comum. Uma só é a imaculada, e também uma só a perfeita. Não encontrarás outra sem mancha, e por isso é uma só a pomba. Não encontrarás outra tão perfeita, e por isso é a minha perfeita, única: puríssima sem exemplo, perfeita sem igual” 64
Maria Santíssima, a primeira na ordem ontológica entre todas as virgens, a propósito de sua concepção em graça recebeu do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira os seguintes louvores:
“Na bula Ineffabilis Deus, com a qual Pio IX definiu o dogma da Imaculada Conceição, encontra-se este trecho:
“«A doutrina que sustenta que a Beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada e imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis» 65
“O Sumo Pontífice afirma, portanto, que Nossa Senhora, por uma graça singular e em vistas dos méritos de Cristo, a partir do primeiro instante de seu ser foi isenta da mancha do pecado original. Essa doutrina foi revelada por Deus, ou seja, está na Bíblia, e por isso deve ser «crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis».
“Para se avaliar o extraordinário significado da Imaculada Conceição, é preciso ter em conta que, em consequência da queda de Adão, todos os seus descendentes haviam de nascer com o pecado original. Lamentável herança em virtude da qual os sentidos do homem continuamente se revoltam contra a sua razão, expondo-o a novos e incontáveis pecados.
“Durante milênios verificou-se, inexorável, essa lei da maldição. Em determinado momento, porém, os Anjos assistem atônitos a um fato sem precedentes na história da Humanidade decaída: Deus quebranta a funesta lei, e um ser é inteiramente concebido sem pecado original. É Nossa Senhora que surge imaculada, resplandecente, com todo o brilho e todo o fulgor de uma criatura perfeita, como o foram Adão e Eva ao saírem das mãos do Onipotente.
“Pode-se imaginar que, nesse sublime instante, um frêmito de júbilo e de glória percorreu todo o universo, acentuado pelo fato de que Maria, isenta do pecado original, era também a obra-prima da criação. Acima d’Ela haveria de estar, apenas, a humanidade santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Narra a Sagrada Escritura que o Padre Eterno, depois de concluída a obra da Criação, repousou na enlevada consideração do que Ele tinha feito.
“Descansou, porém, tendo-se proposto criar um ser que superasse em maravilha tudo o que até então sua onipotência realizara, uma mulher da qual haveria de nascer o Verbo Encarnado. E foi precisamente no momento da Conceição Imaculada de Nossa Senhora que Deus executou essa sua obra-prima” 66
O testemunho dos Santos
A Imaculada Conceição, admirável privilégio da Virgem Maria, foi proclamada por inúmeros Santos, ao longo de todos os séculos da história da Igreja. Por exemplo, Santo André, Apóstolo do Senhor, diante do procônsul Egeu, assim se exprime a respeito de Maria: “E porque o primeiro homem foi formado de uma terra imaculada, era necessário que, de uma Virgem igualmente imaculada, nascesse o homem perfeito” 67
Santo Hipólito, Bispo do Porto, mártir, escrevia por volta do ano 220: “Quando o Salvador do mundo resolveu resgatar o gênero humano, nasceu da imaculada Virgem Maria, e se revestiu de nossa carne...” 68
Santo Efrém o sírio, diácono de Edessa, em 360 exclamava: “Sois imaculada, sois sem mancha e sem defeito, sois a própria pureza, da qual não pode se aproximar sombra de pecado, ó Virgem, Esposa de Deus e nossa Soberana!” 69
O grande São Jerônimo, explicando as palavras do Cântico (V, 2): Pomba minha, imaculada minha — assim se exprime:
“Maria apresenta, em tudo, a simplicidade da pomba, porque nada existiu n’Ela que não fosse toda pureza, toda simplicidade, toda verdade e toda graça.
“Ela é, pois, imaculada, porque não tem traço de corrupção”
E Santo Agostinho: “Quem poderá dizer: eu nasci sem pecado? Quem poderá se gloriar de ser puro de toda iniquidade, senão esta Virgem prudentíssima, este templo vivo do Altíssimo, que o próprio Deus escolheu e predestinou antes da criação do mundo, para que fosse a santa e imaculada Mãe de Deus, para que fosse a filha preservada de toda corrupção e de toda mancha de pecado?” 71
Santo Ildefonso, uma das glórias mais puras da Espanha, escrevia em meados do século VII: “É opinião constante que Ela foi isenta de toda falta original, Aquela por quem não somente a maldição de nossa mãe Eva foi retratada, mas a bênção foi a todos concedida” 72
No ano de 811, São Nicéforo, Patriarca de Constantinopla, dirigia ao Papa Leão III uma carta contendo sua profissão de fé, a qual conclui nestes termos: “Pela intercessão de sua Mãe toda imaculada e toda pura, e pela de todos os Santos”
Ricardo de São Vítor, nos fins do século XII: “As estrelas são cobertas de trevas, os Santos são obscurecidos pela falta comum a todos os homens. Mas a Bem-aventurada Virgem foi toda bela: o Sol de Justiça A iluminou inteira, e A penetrou de seus raios. N’Ela não há mancha alguma nem sombra de pecado”
Durante o século XIV viveu o piedoso e admirável autor Raimundo Jordão, agostiniano e Abade de Celles, o qual, por humildade, se escondia sob o nome de Idiota. Fervoroso defensor da Imaculada Conceição, exclamava: “Sois toda bela, ó Maria, e em Vós não há mácula. Sois toda bela em vossa Conceição, pois fostes formada unicamente para ser o templo do Deus Altíssimo. [...] Jamais mancha alguma, sopro nenhum do vício ou do pecado tocou vossa gloriosa alma! [...] Não há em vós sombra de pecado, seja mortal, seja venial, seja original: nunca houve e nunca haverá!”
Em 1410, São Vicente Ferrer declarava que Maria não foi semelhante a nós, em sua Conceição, mas criada pura e santa, desde o primeiro momento. “E logo — dizia — os Anjos celebraram a festa da Imaculada Conceição!” 76
Nos albores do século XVII, São Francisco de Sales assim se exprimia: “Bem é verdade que nosso primeiro pai e Eva foram criados e não concebidos; sem embargo, todas as concepções dos homens se fazem em pecado. Somente Nossa Senhora ficou isenta deste mal, Ela, que devia conceber a Deus primeiramente em seu coração e em seu espírito antes de concebê-Lo em suas puríssimas entranhas” ‘.
Encerremos esse curto rol de louvores à Imaculada Conceição, com o ardoroso juramento de Santo Afonso de Ligório, um século antes da definição dogmática pela Bula Ineffabilis Deus: “Ó minha Senhora, minha Imaculada, alegro-me convosco por ver-Vos enriquecida de tanta pureza. Agradeço e proponho agradecer sempre ao nosso comum Criador por ter-Vos Ele preservado de toda mancha de culpa. Disso tenho plena convicção, e para defender este vosso tão grande e singular privilégio da Imaculada Conceição, juro dar até a minha vida”
V. Deus A escolheu e predestinou
Entre as infinitas criaturas possíveis, Deus escolheu e predestinou a sua Virgem. Outras não foram as palavras de Pio IX na célebre Bula em que definiu o dogma da Imaculada Conceição:
“Desde o princípio e antes dos séculos, escolheu e pre-ordenou [Deus] para seu Filho uma Mãe, na qual Ele se encarnaria, e da qual, depois, na feliz plenitude dos tempos, nasceria; e, de preferência a qualquer outra criatura, fê-la alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer n’Ela com singularíssima benevolência” .
Gloriosa parte nos desígnios de Deus
Com efeito, escreve o Fr. Royo Marín: “depois de Cristo-Homem, Primogênito de toda criatura, a ninguém amou mais o Pai do que Àquela que no tempo havia de ser a Mãe de seu Filho encarnado”
O mesmo nos ensina o insigne mariólogo Nicolas, segundo o qual a Santíssima Virgem Maria foi “predestinada entre todas as criaturas para ocupar um posto infinitamente superior ao de todos os eleitos.
“Depois de Jesus, e muito antes do que sobre todos os seus irmãos, Deus fixou sobre Ela o eterno olhar de sua complacência, aquele olhar onipotente que, onde quer que se fixe, produz a vida, como o sol faz ressaltar os corpos que reveste e tinge de sua luz” 81
E São Tomás de Villanueva explica que, “embora na mente e eleição de Deus não haja prioridade de tempo — pois tudo foi escolhido desde a eternidade — existe, sem embargo, a prioridade da dignidade, porque alguns foram eleitos para um grau de dignidade maior que outros. Por isso dizemos que a Virgem foi constituída e escolhida singularmente, [...] porque o foi para uma glória eminente e única, pelo que canta d’Ela a Igreja: Deus A elegeu e predestinou” 82
Recolhendo a opinião de santos autores, acrescenta o Pe. Jourdain:
“São Tomás de Aquino ensina expressamente que Cristo, sendo a Sabedoria incriada, não pode ser chamado mera criatura. Assim, não é em louvor de Jesus Cristo, mas de Maria, que a Igreja repete estas palavras do Eclesiástico, na Santa Liturgia: «Eu saí da boca do Altíssimo, primogênita antes de toda criatura... Fui criada desde o começo, e antes de todos os séculos»; e estas outras palavras tiradas do livro dos Provérbios (VIII, 2): «Fui concebida antes das colinas», quer dizer, segundo o pensamento de Santo Agostinho, «Deus me concebeu antes das mais sublimes criaturas, antes dos Anjos e dos Santos, não só para que Eu fosse santa, mas a Mãe de Santos, como deles é Jesus Cristo o Pai, o Príncipe e o Chefe supremo». [...]

“[Assim], concordam todos os teólogos em considerar Maria como a obra-prima do poder divino; reconhecem todos que, nos desígnios de Deus, recebeu Ela a mais bela parte e a mais gloriosa” 83

sexta-feira, 20 de março de 2015

Salve, luz pura

Continuação dos comentários ao Pequeno Ofício de Nossa Senhora
Salve, luz pura
“Os Padres da Igreja não cessam de dar a Maria, como a seu Davi no Filho, o nome de luz. Para eles, Ela é a luz esplendidíssima; a luz das nações; a luz de nosso coração; a luz figurada por aquela criada no começo, e da qual crê-se foi feito o sol, como o Divino Sol de Justiça tirou sua substância corporal da substância da própria Maria, quando veio a este mundo dissipar nossas trevas. [...]
Excelências da luz de Maria
“Os bens provenientes da luz natural, a que brilha aos nossos olhos, são incontáveis. Sem ela a Terra não seria mais do que um horrendo deserto, tornando impossível a vida do homem. Mas os bens que nos traz Maria, a luz de nossas almas depois de Deus, são incomparavelmente mais preciosos e maiores. Sem a Santíssima Virgem, faltar-nos-ia não a luz do corpo, mas a de nossa alma. Sem Ela, todos os homens seriam infalivelmente vítimas da morte eterna, pois é por meio de Maria que nos veio o Divino Sol Jesus Cristo, fora do qual não encontraríamos nem luz nem salvação. [...
“Maria é ainda a luz, por causa de sua beleza. Depois de seu Divino Filho, não houve e não haverá jamais nada que se Lhe compare. O sol que ilumina nossos olhos, as estreias que nos rejubilam com sua maravilhosa harmonia, nada são perto d’Ela. [...]
“A luz torna visíveis os mais humildes objetos: que um raio de sol penetre num ambiente, e logo se perceberá até os mínimos átomos de poeira volteando nos ares. Maria toma nossas almas, coloca-as em face de seu adorável Filho, faz penetrar em nós um raio de sua divina luz, e nossos olhos se abrem, reconhecemos nossas misérias, choramos nossos pecados, abraçamos a virtude. Nossos pensamentos, nossas afeições, esclarecidas graças a Maria, se voltam inteiramente para o soberano Bem.
“Maria é ainda a luz que nos precede e nos mostra o caminho que é preciso seguir em nossa perigosa viagem através do mundo. Ela nos ilumina com seus exemplos, ajuda-nos com sua poderosa intercessão.
“Sua luz não saberia enfraquecer, porque Ela deu o dia a Jesus Cristo, a Luz incriada, sem nada perder de sua própria integridade. A luz é incorruptível, a pureza de Maria é ainda mais incorruptível. Jamais se aproximou d’Ela qualquer fímbria de mácula. Esta luz não tem névoas, porque não há pecado em Maria.
“Para os que entram na via da perfeição, Maria é a luz que indica o caminho, aplaina os obstáculos, auxilia as flores e os frutos dos bons hábitos a se desenvolver e amadurecer, e fá-los crescer em graça e virtude. [...]
“Aqueles aos quais Maria ilumina, não cairão nos embustes do demônio” 48
Luz que ilumina toda a criação
Comenta ainda o douto Pe. Jourdain: “À santidade incomparável com a qual a Bem-aventurada Virgem Maria foi agraciada, desde o primeiro instante de sua existência, é preciso acrescentar as luzes com que Deus, ao mesmo tempo, inundou sua alma. O nome de Maria, entre outras significações místicas, possui a de iluminada. As luzes com que foi esclarecida ao sair do nada, justificam plenamente esta interpretação.
‘Antes de tudo, conheceu Ela a fonte de toda luz, e em Deus conheceu todo o resto, segundo a palavra do Profeta: In lumine tuo videbimus lumen (Si. XXXV, 10). Eia viu Deus criador de todas as coisas, e conheceu as criaturas espirituais, as racionais e as privadas de razão. Ela viu em Deus, bem supremo e absoluto, o que era bom e o que era mau, o que merecia ser procurado ou desprezado, o que era preciso amar e o que odiar. E porque a luz que A iluminava era perfeita, possuía Ela a justa e conveniente medida de todas as coisas. [...]
“[Assim], a Luz divina, a Luz eterna, produziu uma luz criada, destinada a iluminar todas as outras obras das mãos de Deus” .
Essa singular luminosidade da Virgem, espargindo seu fulgor sobre toda a criação, foi também exaltada pelo entusiasmo de São Tomás de Villanueva:
“O tocha brilhantíssima, a quantos alegrastes quando, iluminada pelo resplendor divino, aparecestes imaculada no seio de vossa mãe! [...]
“Dizei-nos, ó sábios astrólogos que contemplais as estrelas; dizei-nos ó profetas! que chegará a ser esta donzela que tão brilhante e avantajada se apresenta ao mundo? [...]
“O dia digno de ser celebrado com grande regozijo, em que tal dom recebemos. Exclamamos com São Bernardo: «Tirai o sol, e o que restará no mundo senão trevas? Tirai Maria da Igreja, que ficará senão a escuridão?»” 50
A luz da Contra-Revolução
Por sua vez, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira nos faz compreender o papel fundamental da Luz pura junto aos que se opõem à Revolução:
“Nossa Senhora é Aquela que gerou a Luz do mundo, Jesus Cristo Senhor nosso. Ela é o foco dessa Luz que as trevas não conseguiram envolver e impedir que fosse vista pelos homens; Ela é o canal por meio do qual a luz do Salvador chega até nós.
“E Maria tanto resplandece da luz de seu Divino Filho, que se diria ser Ela a mesma luz. Por isso podemos cantar com a Igreja: «Salve radix, salve porta, ex qua mundo lux est orta» — «Salve ó raiz, o porta, por onde jorrou a luz ao mundo» 51
“Nós, contra-revolucionários, devemos pedir à Santíssima Virgem que encha nossas almas dessa sua luz, que é, em última análise, a luz da Contra-Revolução, é a luz que fende as trevas da Revolução e chega até aos homens, libertando-os do erro, do vício, do crime e do mal” 52
 Valei ao mundo e a toda criatura
Rainha e Senhora de toda a criação, por vontade divina, Maria
Santíssima vela particularmente pelas necessidades de seus súditos e
pelos cuidados de seu imenso império.
Universal proteção
O dominicano Fr. Bernard assim traduz esse sentimento: “Maria, por mais alto que seja seu coroamento de glória no Céu, permanece em  estreito contato com os homens na Terra. [...J Pela própria perfeição  de seu estado, Ela nos está mais próxima do que os nossos mais próximos. Para nós Ela é sempre mais que o Anjo da Guarda, seja ele o mais terno e o mais vigilante dos amigos. [...]
“Assim, devemos estar absolutamente persuadidos de que a Virgem Santíssima possui todos os meios de pensar constante e distintamente em todos os seus filhos. Nem os tempos nem os espaços podem opor obstáculos ou limites à sua visão, situada, agora, num outro plano, sob a luz da glória [...]: «Meu filho, nos diz Ela,penso em ti na minha eternidade, e não posso mesmo afastar-te de meu pensamento. No fundo, jamais te perco de vista; conheço-te mais do que tu a ti mesmo; estou mais presente em ti do que tu». [...]
“Com efeito, sua dignidade de Rainha, e ainda mais sua missão de Mãe obrigam-Na a ter esta presença de espírito em relação a tudo e a todos. Para isso Ela uniu sua inteligência à de seu Divino Filho, seu pensamento ao pensamento do Homem-Deus. E os dois, assim absortos na  divina Essência, inundados da luz eterna, vendo todas as coisas em  seu princípio e no seu fim, estão presentes espiritualmente no mundo inteiro, para abraçar — no seu todo e nos seus particulares — o universo que Lhes foi confiado. [...]
“Nunca será demais nosso maravilhamento, ao pensarmos até que ponto a proteção da Santíssima Virgem se estende a todos os estados como a todas as necessidades deste mundo. Lourdes é disso um símbolo. Aí se vê como um resumo tangível do que faz Maria Santíssima sempre e em toda a parte. [...] Constantemente Ela oferece socorro àqueles que estão na miséria, auxilio aos pusilânimes, conforto aos que estão em lágrimas. Com sua prece Ela sustenta todo o povo. [...] Ela afasta de nós os males ou os alivia, e atrai sobre nós todos os bens. Em suma, Ela se mostra Mãe tanto quanto é possível sê-lo, e muito mais do que poderíamos imaginar.
“Pode-se pensar, igualmente, que seu patrocínio se adapta aos tempos e aos lugares, às famílias naturais ou espirituais, às cidades e às nações, a tudo o que concerne o movimento e a vida da cristandade sobre a Terra”
Maria ajuda em muitos apuros da vida Por outro lado, segundo Santo Afonso de Ligório, “andamos errando por este vale de lágrimas, como pobres filhos da infortunada Eva, exilados de nossa pátria, chorando por tantas dores que nos afligem no corpo e no espírito. Feliz, porém, aquele que por entre tais misérias se dirige muitas vezes à Consoladora do mundo, ao Refúgio dos pecadores, à grande Mãe de Deus. [...)
“A Santa Igreja bem a nós, seus filhos, ensina com quanto zelo e quanta confiança devemos recorrer sem cessar a esta nossa amorosa protetora. [...] “Bastaria, para isto, somente ver e ouvir que em todas as calamidades públicas ela sempre quer que se recorra à divina Mãe com novenas, com orações, com procissões e visitas às suas igrejas e imagens.
“Isto mesmo quer Maria que nós façamos: que sempre A invoquemos, que sempre Lhe peçamos, não por necessitar dos nossos obséquios, nem das nossas honras tão inadequadas aos seus merecimentos, mas sim para que, à medida da nossa devoção e da nossa confiança, possa melhor socorrer-nos e consolar-nos”
Maria, Mãe e Benfeitora do mundo
Dessa insondável proteção de Maria Santíssima são devedores, não apenas os homens, mas também todas as coisas criadas.
Com razão, pois, é Ela chamada Mãe do mundo.
Ouçamos o renomado jesuíta Pe. Terrien: “O mundo material recebeu tais bens por intermédio de Maria, que Ela pode ser considerada, em sentido impróprio, sua Mãe. [...]
“[Assim exprime] Eádmero a inapreciável vantagem que a criação material recebeu de Deus, pelo ministério da Santíssima Virgem: [...] «As criaturas deviam ser como uma escada que permitisse ao homem elevar-se ao seu comum Autor e a consideração da natureza havia de conduzi-lo ao conhecimento dos esplendores divinos. Esta dignidade elas a perderam [em consequência da queda de Adão]. Lamentável prejuízo que duraria até o momento em que veio ao mundo, por intermédio de Maria, o Redentor Então retomou o homem ao conhecimento de Deus, graças ao Cordeiro; ao mesmo tempo, as criaturas readquiriram sua primitiva condição e foram restabelecidas em sua antiga honra.
“«Ora, este grande bem, a quem o atribuiremos, senão Àquela cujo seio virginal introduziu no mundo o Cristo, Salvador da natureza humana e, por conseguinte, reparador dos privilégios de toda a criação?
“«[Em vista disso], quem nos acompanhou nesta meditação, estime tudo o que as criaturas inteligentes ou as privadas de razão devem a esta Sacratíssima Virgem, [...] pela qual a natureza das coisas recuperou inestimáveis bens, e o mundo recebeu a insigne graça de ser reerguido de uma tão profunda decadência»”
Para Maria se voltam os olhares de todas as criaturas
Diante dessa inesgotável solicitude de Nossa Senhora para com as criaturas, podemos nos associar à fervorosa exclamação de São Bernardo:
“Ó Maria! É para Vós, como para o centro da Terra, como para a Arca de Deus, como para a causa das coisas, como para a estupenda obra dos séculos, que se voltam os olhares dos habitantes do  Céu e da Terra, dos tempos passados, presentes e futuros. [...] Por isso Vos chamarão bem-aventurada todas as nações, ó Mãe de Deus, Senhora do mundo, Rainha do Céu, [...] pois para todas engendrastes a vida e a glória. Em Vós acham os Anjos a alegria, os justos a graça, os pecadores o perdão para sempre. Com razão, portanto, põem em Vós seus olhos todas as criaturas, porque em Vós, por Vós e de Vós a benigna mão do Onipotente refez tudo o que Ele havia criado”


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cheia de graça sois

Continuação dos comentários ao Pequeno Ofício de Nossa Senhora

Cheia de graça sois
Desejando que o Verbo se encarnasse a fim de resgatar a humanidade perdida, o Padre Eterno escolheu para Mãe do Homem-Deus uma Virgem, a mais pura, a mais santa, e a mais humilde entre todas.
Enquanto Maria, na sua pobre casa, estava ocupada em rogar pela vinda do Redentor, apareceu-Lhe, de repente, um Anjo saudando-A: Ave, gratia plena! Dominus tecum; benedicta tu in mulieribus (Lc. I, 28) — “Salve, ó cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres!”
Cheia de graça! “Desde que Adão fora expulso do Paraíso, era a primeira vez que um ser humano se via cumprimentado por um Anjo em termos tão honrosos. Ele interpelava Maria como sendo a mulher agraciada por Deus de modo singularíssimo, e que estava sob especial direção divina”
Excelência de graça superior à de todos os Anjos e Santos reunidos
“Inegavelmente foi a alma de Maria a mais bela que Deus criou. Depois da Encarnação do Verbo foi esta a obra mais formosa e mais digna de si, feita pelo Onipotente neste mundo. Uma maravilha enfim que só é excedida pelo próprio Criador, como diz Nicolau, monge. Por isso não desceu a graça em Maria, gota a gota como nos outros Santos. Desceu, ao contrário, tal como a chuva sobre o velo (Sl. LXXI, 6). Semelhante à lã do velo, sorveu a Virgem com alegria toda a grande chuva de graça, sem perder uma só gota.
“Era-Lhe, pois, lícito exclamar: Na plenitude dos Santos está minha morada (Ecli. XXIV, 16). Isto significa, conforme a explicação de São Boaventura: Possuo em sua plenitude o que só em parte possuem os outros Santos. E São Vicente Ferrer, referindo-se especialmente à santidade de Maria, antes de seu nascimento, diz que excedeu à de todos os Anjos e Santos.
“A graça que adornou a Santíssima Virgem sobrepujou não só a de cada um em particular, mas a de todos os Santos reunidos, como prova o doutíssimo Padre Francisco Pepe, jesuíta, em sua bela obra das Grandezas de Jesus e de Maria. Nela afirma que essa tão gloriosa opinião para com a nossa Rainha é hoje em dia comum e certa entre os teólogos contemporâneos. [...] Ora, se esta é comum e certa, muito provável é também esta outra sentença: Maria, desde o primeiro instante de sua Conceição Imaculada, recebeu uma graça superior à de todos os Anjos e Santos juntos. [...]
Plenitude de graça correspondente à sublime dignidade de Mãe de Deus
“Escreve Dionísio Cartusiano: Por causa de sua predestinação para Mãe do Divino Verbo, foi Maria elevada a uma ordem superior à de todas as criaturas. Pois, segundo Suárez, de certo modo a dignidade de Mãe de Deus pertence à ordem de união hipostática, isto é, à união do Verbo Divino com a natureza humana. Com razão por isso, desde o princípio de sua vida, foram-Lhe conferidos dons de ordem superior, os quais excedem incomparavelmente a quantos foram concedidos às demais criaturas. [...]
“A Santíssima Virgem, diz São Tomás de Aquino, foi escolhida para ser Mãe de Deus e para tanto o altíssimo capacitou-A certamente com sua graça. Antes de ser Mãe, foi Maria, por conseguinte, adornada de uma santidade tão perfeita, que A pôs à altura dessa grande dignidade.
“Já em outra passagem da Suma Teológica, havia dito o Doutor Angélico que Maria é chamada «cheia de graça», porém não tanto por causa da graça propriamente, pois não a possuía na suma excelência possível. Também em Jesus Cristo, diz o Santo, a graça habitual não foi suma, isto é, de tal forma que o poder divino não a tivesse podido fazer maior em absoluto. Foi, entretanto, suficiente e correspondente ao fim para o qual a Divina Sabedoria A predestinara, digo para a união da santa Humanidade com a Pessoa do Verbo. Disso a razão no-la dá o mesmo Doutor: «Tão grande é o poder divino, que, por mais que conceda, sempre lhe resta a dar Por si só, é a criatura muito limitada em sua natural receptividade, e ao mesmo tempo capaz de ser inteiramente cumulada. Entretanto, é sem limites a sua faculdade de obediência à divina vontade, podendo Deus aumentar-lhe a receptividade e cumulá-la de graças».
“Mas, voltemos ao nosso assunto. Afirma São Tomás que Maria, não fosse embora cheia de graça em relação propriamente à graça, é entretanto chamada cheia de graça em relação a si mesma. Pois a recebeu imensa, suficiente e correspondente à sua sublime dignidade. Por ela então se tornou capaz de ser Mãe de um Deus. Escreve por isso Benedito Fernández: Na dignidade de Mãe de Deus está a medi da para se avaliar a graça comunicada a Maria”34.
A voz da Tradição
A plenitude de graça existente em Nossa Senhora foi objeto, ao longo dos séculos, da unânime homenagem dos Santos e dos autores eclesiásticos. Ouçamos, entre outros:
Santo Atanásio: “Fostes chamada cheia de graça porque possuístes a abundância de toda graça!”
Dionisio o Cartuxo: “Assim como ninguém seria capaz de contar as gotas de água do mar, assim ninguém saberá exprimir a excelência da graça e da glória em Maria” .
São Boaventura: “O Filho de Deus, santificando a Virgem, cumulou-A de graça, e depois de santificá-La, A protegeu Ele mesmo com sua sombra e A encheu de glória, de maneira que nem na alma nem no corpo, restasse parte que não estivesse cheia da graça da Divindade”
São Tomás de Aquino: “Em toda ordem de coisas, quanto mais alguém se aproxima do princípio dessa ordem, mais participa dos efeitos desse princípio [...] [y. g., o que mais próximo está do fogo, mais se aquece. Pois bem, Cristo é o princípio da graça: pela divindade, como verdadeiro autor, pela humanidade, como instrumento. E assim se lê em São João: «A Graça e a verdade vieram por Jesus Cristo» (Jo. I, 17). Ora, a Bem-aventurada Virgem Maria esteve proximíssima de Cristo, segundo a humanidade, posto que d’Ela recebeu Cristo a natureza humana. Portanto, deve ter obtido d’Ele uma plenitude de graça superior à dos demais” 38
O mesmo Doutor Angélico, em sua magistral interpretação da Ave Maria, acrescenta:
“A Santíssima Virgem superou aos Anjos pela plenitude da graça, que com mais abundância existe n’Ela do que em qualquer Anjo. Para manifestá-lo disse Gabriel: «gratia plena», isto é, «eu Te reverencio por que me avantajas em abundância de graça». A Virgem Maria está cheia de graça:
“Primeiramente quanto à alma, que possuiu a plenitude, já que Deus a distribui para dois fins: para operar o bem e para evitar o mal. Enquanto ao pecado a Virgem os evitou todos, e muito mais que qual quer Santo, sendo nisto a primeira depois de Cristo, já que nasceu sem o original e se viu livre durante a sua vida do mortal e do venial. Pelo que se Lhe pode dizer: «Tota pulchra est arnica mea et macula non est in te» (Cânt. IV, 7).
“No tocante às obras de virtude, a Santíssima Virgem as praticou todas, enquanto que os Santos não praticaram senão algumas determinadas, pois um foi humilde, outro casto, outro misericordioso. Por isso cada um deles é proposto como modelo de uma virtude distinta, mas a Virgem Santíssima nos dá exemplo de todas.
“Está cheia de graça, em segundo lugar, porque esta superabundou tanto em sua alma que pôde chegar a santificar o seu corpo. Coisa grande é que os Santos tenham a [graça] suficiente para santificar a alma...
“Em terceiro lugar, está cheia de graça porque chegou a derramá-la sobre todos os homens. É coisa admirável que um Santo a tenha bastante para comunicar a salvação a muitos. Mas que salve a todos, não se pode dizer senão de Cristo e de Maria. Em qualquer perigo pode obter-se a graça d’Ela”
São Pedro Damião: “Assim a Virgem, eminentíssima e elevada entre as almas dos Santos e dos Anjos, antecede os méritos de cada um e os títulos de todos... Assim a Virgem singular supera a uma e outra natureza (angélica e humana) pela imensidade da sua graça e o fulgor das suas virtudes” 40,
São Pedro Crisólogo: “A cada um se lhe dá a graça por partes, mas a Maria Lhe foi concedida toda a plenitude da graça” 41, Fr. Luís de Granada, fazendo eco à voz de seus antecessores, afirma: “Todos concordam em que a sacratíssima Virgem, antes de nascer, foi cheia de todas as graças e dons do Espírito Santo, porque assim convinha que fosse A que ab ætemo era escolhida para ser Mãe do Salvador do mundo. Por maiores que fossem esta graça e estas virtudes, não há língua humana que o possa declarar. A razão é porque Deus faz todas as coisas conformes aos fins para que as escolhe, e assim as provê perfeitissimamente do que para elas é necessário. [...] E porque a esta sacratíssima Virgem elegeu para a maior dignidade que se possa conceder a mera criatura, daí vem que A adornou e engrandeceu com superior graça, com maiores dons e virtudes que jamais se concederam a nenhuma simples criatura” 42
São Tomás de Villanueva: “Dá rédeas soltas à imaginação, dilata os horizontes do entendimento e procura forj ar em tua mente a imagem de uma virgem puríssima, prudentíssima, formosíssima, devotíssima, humilíssima, mansíssima, cheia de toda graça, dotada de toda santidade, adornada de todas as virtudes, enriquecida de todos os carismas, sumamente agradável a Deus; acrescenta quanto puderes, lança-te ao que alcançares; imensamente maior é a Virgem, mais excelente é esta Virgem, muito superior é esta Virgem.
“Não A descreveu o Espírito Santo nas sagradas letras, mas A deixou para que A esculpisses tu em tua alma, e assim compreendas que Ela nada faltou da graça, da perfeição, da glória que o espírito seja capaz de conceber numa mera criatura, e, mais ainda, que superou na realidade todo entendimento”43
Por fim, as célebres palavras de Pio IX na Bula Ineffabilis Deus, m que proclamou o dogma da Imaculada Conceição:
“[O Padre Eterno], de preferência a qualquer outra criatura, fê-lA alvo de tanto amor, a ponto de se comprazer n’Ela com singularíssima benevolência. Por isto cumulou-A admiravelmente, mais do que a todos os Anjos e a todos os Santos, da abundância de todos os dons celestes, tirados do tesouro da sua Divindade. Assim, sempre absolutamente livre de toda mancha de pecado, toda bela e perfeita, Maria possui uma tal plenitude de inocência e de santidade, que, depois da de Deus, não se pode conceber outra maior, e cuja profundeza, afora de Deus, nenhuma mente pode chegar a compreender”.44
Contínuo crescimento de graça
A propósito da plenitude da graça em Nossa Senhora, importa considerar, ainda, o testemunho de São Luís Maria Grignion de Montfort, acompanhado de sábias ponderações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.
Assim se exprime aquele Santo: “Só Maria achou graça diante de Deus (Le. I, 30) sem auxílio de qualquer outra criatura. E todos, depois d’Ela, que acharam graça diante de Deus, acharam-na por intermédio d’Ela e é só por Ela que acharão graça os que ainda virão.
Maria era cheia de graça quando o Arcanjo Gabriel A saudou (Le. I, 28) e a graça superabundou quando o Espírito Santo A cobriu com sua sombra inefável (Le. I, 28)”
Ouçamos agora o comentário que deste trecho nos faz o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
“O pensamento é muito ligado ao admirável fato do crescimento da graça em Nossa Senhora.
“Sempre cheia de graça, houve porém determinado momento em que a Santíssima Virgem, pela sua perfeitíssima fidelidade, e por gratuita predileção de Deus para com Ela, adquiriu naquele instante a plenitude de dons celestiais correspondente: o momento em que o Espírito Santo A desposou, e n’Ela quis que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse concebido.
“São Luís Grignion, com a exatíssima e ardorosa linguagem que o caracteriza, depois de falar em plenitude, indica que houve um transbordamento de graças a partir do momento em que Nossa Senhora se tornou Esposa do Espírito Santo e Mãe do Salvador.
“Tudo leva a crer que a gestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ter sido perfeita, tenha durado nove meses normais. Nesse período, Maria Santíssima trazia consigo, como num tabernáculo, o Verbo Encarnado. Isso significava um processo interno de produção do corpo d’Ele, ao qual deveria corresponder, certamente, um processo de união de alma com o Filho que Ela estava gerando: Ela Lhe dava o corpo e Ele A revestia de graças em proporções inimagináveis.
“Está dito tudo” — pensará alguém. Ora, precisamente, não está tudo dito.
Maria, cheia de graça
A respeito do progresso da graça na Santíssima Virgem, escreve um dos grandes mariólogos de nosso século:
“Antes da Anunciação, Maria já possuía a graça: Ela sempre a teve plenamente, e mesmo desde a sua concepção, por um privilégio exclusivo seu, com vistas à sua insigne missão. [...]
“Entretanto, no curso desse incessante progresso da graça em Maria, a Anunciação marca o momento único onde esta Virgem, neófita em sua maternidade, é literalmente transformada em seu Filho.
“Este Filho é um tesouro. Ele é o Princípio da graça; é o autor dela por sua divindade, e o instrumento de produção e de difusão da mesma entre nós, por sua humanidade. [...] Contendo Cristo em Si, antes de todo o mundo e para todo o mundo, Maria recebeu d’Ele uma maior plenitude de graça que todas as demais criaturas somadas, tornou-se mais cristã que todos os cristãos juntos. [...]
“E no momento em que Ela alcançou o termo de sua carreira terrestre, a Bem-aventurada Virgem encarnava verdadeiramente em sua pessoa e na sua vida, a mais alta perfeição e a própria plenitude da graça cristã.
“Esta água viva, que Maria Santíssima hauriu no contato com o Verbo Encarnado, tornou-se n’Ela uma fonte transbordante de vida eterna e pronta a se comunicar todos. No período da Assunção, os supremos instantes da Virgem unem concretamente o tempo e a eternidade, o regime da graça e o da glória. Terrena, ainda o é a Mãe de Jesus; celeste, Ela já o é — e quanto!”
“Depois disso, Ela deveria aproveitar, com perfeitíssima fidelidade, os trinta anos da vida oculta de seu Divino Filho. Cada minuto de presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Família representava imensa graça para Maria e São José, superiormente correspondida pelos dois.
“E a santificação de Nossa Senhora continua até o momento em que, depois da Ascensão de Jesus Cristo, recebe o Espírito Santo para distribuí-Lo a toda a Igreja (em Pentecostes sabemos que o Espírito Santo desceu sobre Ela na forma de uma chama que, em seguida, se derramou sobre todos os Apóstolos).
“Enfim, no momento em que Lhe era como que impossível crescer ainda em santidade, de tal maneira sua alma estava repleta de celestiais dons, Nossa Senhora teve a sua dormição, como é chamada sua morte, por uma linguagem teológica muito apropriada e muito poética.
Da plenitude de graças de Maria, recebe toda a humanidade
“São Luís Grignion nessa consideração, com verdadeiro olhar de águia, firma então o princípio: Nosso Senhor concedeu tanto a Maria que, em última análise, só deu a Ela.
“Com efeito, foi da plenitude por Ela recebida que todas as graças vieram para os homens. Ou seja, a humanidade inteira se beneficia do transbordamento das graças da Santíssima Virgem” 46
Confiança n ‘Aquela que é cheia de graça
Encerramos os comentários sobre o louvor “Cheia de graça sois”, com estas palavras igualmente proferidas pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
“Que importância têm os nossos inimigos, que importância tem, até mesmo, o demônio, se sabemos quem é Nossa Senhora? Que importância têm as tristezas de nossos dias? Debaixo de certo ponto de vista, que importância têm os nossos pecados? Se a Virgem Imaculada é cheia de graça, Ela, por uma palavra, pode nos libertar de todos eles. Por um movimento de sua misericórdia, Ela pode afastar todos os nossos defeitos e nos tolnaT completamente limpos e puros.
“Considerando a proporção insondável das graças de Maria, adquirimos outra confiança, outra alegria, outra esperança nos imponderáveis e nos inverossímeis de nosso apostolado e de nossa vida interior. Cheia de graça, a Santíssima Virgem é a porta que nos conduz a Nosso Senhor Jesus Cristo”
28) Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência em 22/5/1968. (Arquivo pessoal).
29) GRIGNION DE MONTFORT, Luís Maria. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1961. p. 42.
30) Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferências em 31/5/1972 e 13/3/1992. Arquivo pessoal).
31) PIO XII. Discurso no solene rito mariano de 1 de novembro de 1954. In: Documentos Pontifícios. Petrópolis: Vozes, 1955. p. 20-21.
32) Cfr. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferências em 31/5/1965 e 31/5/1991. (Arquivo pessoal).
33) WILLIAM, Francisco Miguel. Vida de Maria, Mãe de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1940, p. 70-71.
34) LIGUORI, Afonso Maria de. Glórias de Maria Santíssima. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1964. p. 208-2 11.
35) ATANASIO, Serin, de Deiparae. Apud JOURDAIN, Z.-C. Somme des Grandeurs de Marie. Paris: Hippolyte Waizer, 1900. Vol. V. p. 370.
36) DIONÍSIO, o Cartuxo. De Laud. Virg. art. 3, Apud JOURI)AIN, Z.-C. Loc. cit.
37) BOAVENTURA. Obras Completas. Madrid: BAC, 1947. Vol. IV. p. 775.
38) AQUINO, Tomás de; BUSA, Roberto. S. Thomae Opera Omnia. Summa contra gentiles autographi deleta Summa Theologiae. Milano: Cartiere Binda, 1980. Vol. II. p. 811.
39) AQUINO, Tomás de; BUSA, Roberto. S. Thomae Opera Omnia. Reportationes Opuscula Dubiae Authenticitatis. Milano: Cartiere Binda, 1980. Vol.VI. p. 285.
40) DAMIÃO, Pedro. Serin. 40, in Assumpt. B. M. Virg. Apud ALASTRUE’Y, Gregório.Tratado de Ia Virgen Santísima, . ed.,Madü& BAC, 9S2, p. 23.
41) CRISÓLOGO, Pedro, Semi. 143, inAssumpt. B. M. Virg. Apud ALASTRURIO. Tratado de la Virgen Santísima, 3. ed., Madrid: BAC, 1952. p. 283.
42) GRANADA, Luís de. Obra Selecta. Madri: BAC, 1952 p. 730-731.
43) VILLANUEVA, Tomas de. Obras. 3. ed. Madrid: BAC, 1952. p. 194.
44) PIO IX. Bula Ineffabilis Deus. In: Documentos Pontifícios. Petrópolis: Vozes, 1953. p. 3.
45) GRIGNION DE MONTFOR1 Luís Maria. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1961. P. 46.

46) BERNARD. Le Mystère de Marie. 4. ed. Bruges: Desclée de Brouwer, 1954. p. 91 e 210.