sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sois a Arca da Aliança, o trono de Salomão

Hora Tercia

Conforme observa São João Eudes, “todos os livros sagrados da Lei de Moisés estão cheios de figuras e símbolos das digníssimas Pessoas de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua sacratíssima Mãe. E todos os Santos Padres, em seus escritos, se comprazem em nos descobrir tais figuras, e em nos fazer ver seu esplendor e beleza” .
O terceiro Hino do Pequeno Ofício evoca alguns desses símbolos sugeridos pelo Espírito Santo, nas páginas do Antigo Testamento, para fazer conhecer e amar pelos homens a futura Mãe de Deus, antes mesmo que Ela aparecesse sobre a Terra.
Assim, entre outras, foram imagens de Nossa Senhora: a Arca da Aliança, que continha as tábuas da Lei; o magnifico trono de Salomão; o arco-íris traçado no céu, após o castigo do dilúvio; a vara de Aarão, que floresceu dentro da Arca do Testamento; o velo de Gedeão, ora seco, enquanto toda a terra ao seu redor estava molhada de orvalho; ora embebido de rocio, quando aquela permanecia árida; a sarça ardente, de dentro da qual Deus falou a Moisés; o favo de mel que Sansão encontrou no cadáver do leão morto por ele; e a porta oriental do templo, que Ezequiel discerniu, cerrada, em uma de suas proféticas visões.
A recordação desses símbolos da Santíssima Virgem, acompanhada de novos e expressivos louvores à sua Imaculada Conceição, compõe a bela Hora mariana que a seguir contemplaremos.
Sois a Arca da Aliança, o trono de Salomão
Em meio à “glória do Senhor” que abrasava o alto do Monte Sinai, Moisés recebeu de Deus esta ordem (Ex. XXV, 10-16): “Fazei uma Arca de pau de setim, cujo comprimento tenha dois côvados e meio, a largura côvado e meio, e altura igualmente côvado e meio. Revesti-la-ás de ouro puríssimo por dentro e por fora; e farás sobre ela uma coroa de ouro em roda; e farás quatro argolas de ouro, que porás nos quatro cantos da Arca: duas argolas de um lado, e duas do outro. Farás também varais de pau de setim e os cobrirás de ouro, e os farás passar por dentro das argolas que estão aos lados da Arca, a fim de que sirvam para o transporte. Estarão sempre metidos nas argolas, e nunca se tirarão delas. E porás na Arca o Testemunho que Eu te hei de dar.”
Símbolo das múltiplas dignidades de Nossa Senhora

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Ele próprio A criou no Espírito Santo

Ele próprio A criou no Espírito Santo
Verdadeira criação no Espírito Santo
Referindo-se à miraculosa origem de Nossa Senhora, em virtude de sua Imaculada Conceição, observa Fr. Bernard, O. P, que esta foi “uma verdadeira criação no Espírito Santo, da qual resultaram a mais santa infância e a mais santa adolescência, como nunca se viu semelhantes, e como jamais se há de ver”
É o que, em outros termos, afirma São João Eudes: “Assim como Jesus foi predestinado para ser Filho de Deus por obra do Espírito Santo, assim Maria foi animada e possuída do mesmo Espírito, desde o primeiro instante de sua vida, o qual A encheu de suas graças e A santificou sempre mais e mais, durante o curso de sua infância, para dispô-La a conceber e dar à luz o Verbo Eterno e a ser Mãe de Deus”
O santo franciscano Fr. Maximiliano Kolbe (1894-1941), bela e ousadamente assinala essa íntima união da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade com Nossa Senhora: “Poder-se-ia quase dizer que a Imaculada é a Encarnação do Espírito Santo” 76
O mesmo autor, em outro passo acrescenta:
“Na alma da Imaculada, o Dispensador de todas as graças — o Espírito Santo — inabitou desde o primeiro instante da existência d’Ela, assumindo-A e penetrando-A de tal maneira, que o nome de Esposa do Espírito Santo significa apenas um remoto, tênue e imperfeito — embora verdadeiro — esboço desta união” E
 E A representou maravilhosamente em todas as suas obras.
Excelso compêndio da criação
Comentando a passagem dos Provérbios (VIII, 22-31) usada pela liturgia na celebração da Natividade de Nossa Senhora, escreve São João Eudes:
“[Maria] estava presente com o Criador do universo, quando Ele firmava os céus, regulava o movimentos dos astros, e cercava os abismos; quando formava o ar e os ventos, e dava consistência às nuvens no alto; quando fixava ao mar seus limites, para que as águas não ultrapassassem seu termo; quando assentava os fundamentos da terra.
“Como se entende isto? De que maneira esta sagrada Virgem estava com Deus na criação do mundo, e de que maneira fez tudo com Ele?
“Estava com Deus, porque Ele A levava sempre em seu espírito e em seu coração, e considerava cuidadosamente todas as perfeições naturais e sobrenaturais diversamente repartidas entre todas as criaturas, para um dia recolhê-las e reuni-las todas juntas n’Aquela a quem havia destinado para ser a Soberana do universo. Por esta razão Santo Epifânio A chama: «Mistério do Céu e da Terra», porque Deus pôs nesta maravilhosa Virgem como num resumo e compêndio, tudo o que há de formoso, bom e excelente na Terra e no Céu” 78
No mesmo sentido, transcreve o Pe. Jourdain este comentário de um piedoso autor: “Deus se comprouve na criação dos Anjos, dos Arcanjos, dos Querubins e dos Serafins; comprouve-se na criação do céu material, dos astros, do sol, da Terra e das criaturas que ela encerra. Criando todos esses seres, Deus prenunciava sua obra-prima por excelência, a criação de Maria, que seria Ela mesma o prelúdio da criação da humanidade do Salvador. Tudo se reportava a Jesus e a Maria, tudo a Eles representava, tudo preparava sua vinda sobre a Terra para o resgate dos homens e a glorificação de Deus” .
Simbolizada pelos píncaros da criação
Sirva-nos de conclusão este interessante pensamento do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
“Nossa Senhora está representada em todas as obras do Criador.
“Contudo, simbolizam-Na de modo insigne as que o fazem à maneira de píncaro. O que, bela e harmoniosamente, exprime aquele cântico: «Maria fons, Maria mons» — «Maria que é fonte, Maria que é monte».
“A montanha é um píncaro em relação às outras coisas da natureza. Píncaro é também a fonte em relação à terra, pois esta se alimenta da água que sai daquela.
“E assim todas as criaturas que são, de alguma maneira, píncaros em relação às outras, de modo especial simbolizam a Santíssima Virgem, porque em tudo quanto é d’Ela está presente a nota de píncaro”.
V Protegei, Senhora, etc.

Repetem-se as mesmas orações do final de Matinas

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Sede amparo e refúgio à grei fiel

Sede amparo e refúgio à grei fiel
Nossa Senhora do Amparo
O primeiro dos títulos marianos acima mencionados, encontra apropriado comentário na interpretação que dá o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira à invocação de Nossa Senhora do Amparo. Assim se exprime ele:
“O indivíduo desamparado não é apenas aquele a quem falta algo, mas é também o que recorre em vão a todos os meios humanos para obter o que necessita. Aquele que se vê imerso numa grave dificuldade, na qual sua vida inteira está empenhada; e não encontra sustentáculo, arrimo ou apoio terreno algum — este é o indivíduo desamparado.
“Nossa Senhora do Amparo é precisamente Aquela que tem particular pena dos que se acham desamparados, seja do ponto de vista espiritual, seja do ponto de vista material. Ela, cheia do especial desvelo que têm as mães para com os filhos necessitados, opera maravilhas para ajudá-los. N’Ela encontram eles o sustentáculo, o apoio e o arrimo que procuram. Nossa Senhora do Amparo é, pois, Nossa Senhora de todas as solicitudes, é Nossa Senhora de todas as compaixões, é Nossa Senhora de todos os instantes em que o homem precisa de algo e a Ela recorre”.
Maria se fez toda para todos
Essa onímoda e constante proteção que a Mãe de Deus nos concede, foi assim exaltada por São Bernardo: “[Maria] se fez toda para todos; com uma copiosíssima caridade se fez devedora a sábios e ignorantes. A todos abre o tesouro da misericórdia, para que todos recebam de sua plenitude: redenção, o cativo; cura, o enfermo; consolo, o aflito; perdão, o pecador; graça, o justo; alegria, o Anjo; glória, a Trindade toda; e a própria pessoa do Filho recebe d’Ela a natureza humana, a fim de que não haja quem se esconda de seu calor”.
E Santo Afonso de Ligório, insistindo na necessidade de recorrermos ao auxílio de Maria, nos aconselha uma lindíssima súplica:
“Digam, pois, todos com grande confiança, invocando esta Mãe de misericórdia, como Lhe dizia o Pseudo-Agostinho: Lembrai-Vos, ó piedosíssima Senhora, que não se tem ouvido, desde que o mundo é mundo, que alguém fosse de Vós desamparado. E por isso perdoai-me se Vos digo que não quero ser o primeiro infeliz, que, recorrendo a Vós, não consiga o vosso amparo”.
Refúgio dos cristãos contra toda sorte de inimigos
No mesmo louvor que ora se comenta, a Virgem Santíssima é também invocada como o infalível refúgio dos cristãos.
“Desde o tempo das perseguições — escreve Mons. Dadolle — a Igreja depositou sua confiança no culto que ela devota a Maria. Esse culto se lê ainda hoje, vivo e imortal, sobre os muros das catacumbas, onde o encontram estampado em desenhos e em cores. A imagem da Virgem Mãe, colocada nas principais absides dessas criptas sagradas, onde a fé dos primeiros cristãos ia se afervorar ou se defender, mostra-nos que, desde esses primitivos tempos, a sociedade cristã conhecia seu refúgio seguro contra todas as formas de ataques do inimigo”.
Semelhante é a opinião do Fr. Garrigou-Lagrange, que diz: “Maria é o socorro dos cristãos, porque o socorro é o efeito do amor, e Ela possui a plenitude consumada da caridade, que sobrepuja a de todos os Santos e Anjos reunidos.
“Nossa Senhora ama as almas resgatadas pelo Sangue de seu Filho mais do que saberíamos dizer, assiste-as em suas penas e as ajuda na prática de todas as virtudes. [...] Ela é o socorro, não apenas das almas individuais, mas dos povos cristãos. [...]
“O título de Nossa Senhora das Vitórias nos recorda que, frequentemente, sua intervenção foi decisiva sobre os campos de batalha para libertar os cristãos oprimidos” 
O Refúgio por excelência
Por fim, ouçamos novamente o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, cujas palavras são como um resumo dos ensinamentos que acabamos de considerar: “Ao longo de toda a sua existência, a Igreja encontrou na Santíssima Virgem sua grande protetora.
“Nossa Senhora esteve presente nas batalhas onde os guerreiros católicos derrotaram os exércitos de seus inimigos, e nas lutas dos povos fiéis contra os infiéis.
“Nossa Senhora está, sobretudo, presente na ininterrupta luta de cada homem contra seus defeitos, para adquirir maiores virtudes. E ainda que não nos lembremos de Maria, Ela intercede por nós no alto do Céu, com uma misericórdia que nenhuma forma de pecado pode esgotar.
“Nossa Senhora é o perene e contínuo refúgio que jamais se fecha para qualquer pecador. Ou seja, Ela não é um refúgio apenas para os que tenham cometido faltas leves, senão que o é também para os autores de pecados de gravidade inimaginável e para as ingratidões inconcebíveis. Pois é próprio da grandeza da Mãe de Deus, na qual tudo é admirável e extraordinário, o ser um imenso e perfeito refúgio.

“Desde que o pecador se volte para Ela, a Virgem Santíssima, cheia de bondade, o protege, concede-lhe toda espécie de perdão, limpa-lhe a alma, dá-lhe forças para praticar a virtude e o transforma de filho pródigo em homem bom e fiel” 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sois armado esquadrão contra Luzbel

Sois armado esquadrão contra Luzbel
A fim de expressar o pavor que a Imaculada Mãe de Deus inspira às hostes infernais, a tradição cristã e a liturgia católica aplicam a Maria esta frase da Escritura: “Terrível como um exército em ordem de batalha” (Cânt. VI, 3 e 9).
Terrível adversária do demônio
“Quando uma confusa tropa de rebeldes vê avançar contra si um poderoso exército, toma-se de terror à vista dos estandartes e das armas reluzentes, e antes pensa em fugir do que em combater.
“No Cântico dos Cânticos, Maria é comparada a um potente exército: terribilis ut castrorum acies ordinata. Para quem Maria é assim tão terrível? Não para os Anjos, nem para seus fiéis servidores; tampouco para os pobres pecadores que a Ela recorrem com coração contrito e humilhado. Ela é terrível para os anjos rebeldes. A sua simples lembrança, tremem os demônios que não podem suportar sua presença, diz o Cardeal Hugo. E Maria não está só. Com Ela estão todos os Santos e todos os Anjos que formam seu exército. Ela os envia, quando necessário, em socorro daqueles que A invocam. Com razão diz São Pedro Damião que Maria é a nossa proteção contra os demônios, e São Boaventura, que Ela é a vara do poder de Deus contra os inimigos infernais, cujas ciladas e ataques Ela confunde e reprime”.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Eva, Mãe da vida - Estrela de Jacob Aparecida

Eva, Mãe da vida
A segunda e verdadeira Eva
Assim “como Jesus Cristo foi chamado pelos Padres o novo Adão, assim também a Virgem foi chamada a nova Eva. A primeira Eva foi mãe de todos os viventes na ordem da natureza; a segunda Eva, Maria, o foi na ordem, desmesuradamente superior, da graça. Se lançarmos, porém, um olhar à primeira mulher depois da culpa, eis que Maria se nos depara como totalmente diferente.
“Com efeito, Eva, falando com o Anjo das trevas, que lhe apareceu sob o aspecto de uma serpente, consentiu na prevaricação e arruinou todo o gênero humano. Maria, ao contrário, falando com o Anjo da luz, consentiu na reparação do gênero humano e o salvou. Eva ofereceu ao homem o fruto da morte; Maria, ao contrário, lhe deu o fruto da vida. Eva foi medianeira da morte, Maria foi medianeira da vida”.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Porta dos Santos

E no seio materno sempre santa
Afirma o eminente mariólogo que “a remissão do pecado original não se pode fazer sem a infusão da graça santificante. Por isto a Imaculada Conceição não se distingue, na realidade, da primeira santificação da Mãe de Deus, e se pode chamar sua graça original” 43.
Maria, santa desde o primeiro instante de sua vida
Os Santos e outros abalizados autores, de diversas maneiras exprimiram essa doutrina.
Em um de seus arrebatadores sermões dedicados a Nossa Senhora, São Tomás de Villanueva ensina: “Era necessário que a Mãe de Deus fosse também puríssima, sem mancha, sem pecado. E assim não apenas quando donzela, mas em menina foi santíssima, e santíssima no seio de sua mãe, e santíssima em sua concepção. Pois não convinha que o santuário de Deus, a mansão da Sabedoria, o relicário do Espírito Santo, a urna do maná celestial, tivesse em si a menor mácula. Pelo que, antes de receber aquela alma santíssima, foi completamente purificada a carne até do resíduo de toda mancha, e assim, ao ser infundida a alma, não herdou nem contraiu pela carne mancha  alguma de pecado, como está escrito: «Fixou sua habitação na paz (Si. LXXV,  3). Quer dizer, a mansão da divina Sabedoria foi construída sem a inclinação para o pecado”
Ao assinalar os principais privilégios que acompanharam a Imaculada Conceição de Maria, escreve São João Eudes: 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Fostes livre do mal que o mundo espanta

Fostes livre do mal que o mundo espanta.
Comentando as palavras do Salmo 90: “Não chegará a ti o mal, nem o açoite se acercará de tua morada”, diz São Bernardo que “a verdadeira vida da alma é Deus, do qual somente pode separá-la o mal. O mal da alma, que outra coisa é senão o pecado?”
O pecado: causa de todos os males
“O mal que o mundo espanta” é, pois, o pecado, destruidor de todos os bens que Deus concede aos homens para se unirem a Ele nesta vida e na outra. É o que salienta o Pe. Texier, corroborado por palavras da Virgem Santíssima, colhidas em revelações particulares:
“Na via que conduz a Deus, o primeiro obstáculo que se nos depara, e o maior, é o pecado: ele reduz a marcha e pode nos jogar fora do caminho. A respeito deste inimigo do Senhor, Maria quer nos comunicar o sentimento de sua alma; Ela nos dirá, com o Salmista: «O vós que amais a Deus, detestai o mal» (51. XCVI, 10). [...]
“O que torna o pecado tão terrível é o fato de ele ser a causa de todos os males.
“Eu sou a saúde dos enfermos, declara a Santíssima Virgem a Maria Lataste (Sua vida, por Pascal Darbinis, II, 199). Ora, há duas espécies de enfermidades: as do corpo e as da alma. Curo igualmente umas e outras. Todas têm por princípio o pecado. Este, com efeito, sujeitou o homem à morte e às diversas doenças que atormentam seu corpo nas provas da vida. E, ao mesmo tempo, inclinou tristemente a alma humana para o mal.
“Quantas vezes, no curso dos séculos, a Santa Mãe de Deus lembrou aos homens esse funesto privilégio do pecado! Em La Salette, em Lourdes 36, indicou Ela o grande mal contra o qual é preciso se premunir, porque ele provoca a cólera do Altíssimo e atrai os castigos sobre o mundo”.
Nossa Senhora, isenta de todo pecado
Ora, esse triste mal que aflige o homem e o mundo, jamais atingiu a excelsa Mãe de Deus, imune como foi, desde o primeiro instante seu ser, a qualquer pecado, seja original, seja atual (isto é, aquele cometido pelo livre consentimento humano).
Com devotas palavras, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira retrata este sublime aspecto de Maria Imaculada:
“Concebida sem pecado original, Nossa Senhora não sentia em si nenhuma inclinação para o que fosse ruim. Pelo contrário, possuía todas as facilidades para dar à graça de Deus uma perfeita e constante correspondência. De sorte que, n’Ela, as grandezas sobrenatural e natural se entrelaçavam numa profunda e maravilhosa harmonia.
“Em consequência, Nossa Senhora tinha como ninguém uma altíssima noção da excelência de Deus, e da glória que Lhe devem render todas as criaturas. Por isso, nutria em sua alma vivíssimo horror ao pecado, que é um ultraje à mesma glória divina. Donde possuir Ela, também, uma ardorosa combatividade, no sentido de execrar toda forma de mal.
“Compreende-se, à vista disto, porque Nossa Senhora é comparada a um exército em ordem de batalha: Castrorum acies ordinata. Ou, como d’Ela se diz, que sozinha esmagou todas as heresias na Terra inteira. Por quê?
“Exatamente porque, já no privilégio de sua Imaculada Conceição, Ela é o modelo de combate ao mal”. 38
Mal que o mundo espanta
Causa dos males do indivíduo, o pecado o é também das desordens sociais. Tal nos assinala um dos grandes teólogos dominicanos, Fr. Victorino Rodríguez y Rodríguez, O. P., frisando o ensinamento do Magistério eclesiástico:
“Toda a vida humana, a individual e a coletiva, apresenta-se como luta, seguramente dramática, entre o bem e o mal. [...]
“E certo que as perturbações, verificadas tão frequentemente na ordem social, decorrem em parte das próprias tensões existentes nas estruturas econônicas, políticas e sociais. Porém, mais profundamente, originam-se da soberba e do egoísmo dos homens, que transtornam também o ambiente social. Mas onde a ordem das coisas é atingida pelas consequências do pecado, o homem, inclinado ao mal por nascença, encontra em seguida novos estímulos para o pecado [Concilio Vaticano II, Gaudium et spes, nn. 13 e 25].”
A única criatura humana na qual o demônio não tem parte
A respeito de como Nossa Senhora foi “livre do mal que o mundo espanta”, é também categórico o ensinamento do Pe. Domingos Bertetto, S. D. B.:
“Entre os seres humanos, Maria é a única de quem se pode dizer: Satanás não tem n’Ela parte alguma. Tudo n’Ela pertence a Deus».
“Efetivamente, não só se admira n’Ela a inocência original e a ausência de todo pecado mortal, mas ainda a imunidade de toda culpa venial, bem como de qualquer mínima imperfeição moral. Deve-se isto, ensina o Concilio de Trento, a um «especial privilégio de Deus», que a Igreja considera ter sido dispensado à Santíssima Virgem (cfr. sess. VI cân. 23, Denz. 833).
“De fato, à Virgem Maria convinha aquela pureza moral que se reclama da sua excelsa prerrogativa de Mãe de Jesus, Cordeiro sem mancha, nascido para abolir o pecado no mundo. [...]
“Por isso foi saudada pelo Arcanjo como cheia de graça e da presença do Senhor. «Que defeito — diz São Pedro Damião —poderia ter lugar na mente ou no corpo d’Aquela que, tal como o Céu, foi o sacrário de toda a divindade?».
“Maria, por conseguinte, agiu sempre sob a inspiração e o impulso do Espírito Santo, de maneira que «nunca preferiu senão aquilo que Lhe mostrava a Divina Sabedoria — acrescenta São Bernardino de Siena — e sempre amou a Deus quanto sabia devê-Lo amar». Por isso é que também d’Ela se devem excluir todas as imperfeições morais” 39
Privilegiada e singular santidade
Sobre a insondável santidade da Mãe de Deus, encontram-se outros fervorosos testemunhos expressos nas páginas da Mariologia. Podemos citar, por exemplo, o de São Bernardo: “Creio que desceu sobre Ela uma abundantíssima bênção santificadora, que não apenas fez  santo o seu nascimento, como também A guardou imune durante sua vida de todo pecado; o qual não se acredita tenha sido dado a nenhum outro nascido de mulher. Convinha à Rainha das virgens o privilégio de uma santidade especial, por cuja virtude transcorresse toda a sua existência sem um só pecado, para que deste modo a que havia de dar à luz o Vencedor da morte e do pecado, obtivesse para todos o dom da vida e da justiça” 40
Enumerando os excelsos privilégios de Nossa Senhora, escreve o Pe. Mathias Faber, S. J. (séc. XVII):
“A quarta estrela da coroa de Maria foi a imunidade de todo pecado atual, mesmo venial. [...] Os santos Padres multiplicam seus testemunhos sobre este ponto. Santo Agostinho ensina no livro Da Natureza e da Graça, que ele não quer, absolutamente, que se faça menção à Bem-aventurada Virgem todas as vezes que se trate do pecado. São Bernardo, São Boaventura, Santo Ambrósio, Santo Efrém, todos enfim falam no mesmo sentido. De resto, o Anjo da Anunciação não o indicou assaz claramente quando disse a Maria: «Ave, cheia de graça»?
“Enquanto andamos pelos lamacentos caminhos deste mundo, nós, homens, [...] não podemos viver muito tempo sem cair em alguma falta, por causa dos perpétuos movimentos da concupiscência que nos excitam ao pecado. Contudo, não era digno da Mãe de Deus estar sujeita a esta enfermidade. Se houvesse Ela cometido um só pecado, poderia convenientemente se tornar a Mãe do Deus que desceu sobre a Terra para extirpar todo pecado? Não redundaria desta falta alguma ignomínia sobre seu Filho?
“Maria foi impecável e confirmada em graça de maneira tão perfeita, que não podia pecar nem mesmo venialmente. É este o ensinamento dos doutores, e a Santa Igreja, que celebra a Conceição e a Natividade da Mãe de Deus, testemunha sua crença na inamissível santidade de Maria, não apenas em seu nascimento, como também no próprio instante de sua puríssima e Imaculada Conceição”
E ainda a célebre e bela sentença do Doutor Angélico:
“Aqueles aos quais Deus elege para uma missão, prepara-os de sorte que sejam idôneos para desempenhar a mesma. [...]
“Ora, a Bem-aventurada Virgem Maria foi por Deus escolhida para ser sua Mãe, e não há dúvida de que Ele A tornou, por sua graça, idônea para semelhante missão, segundo o que o Anjo Lhe disse: «Achaste graça diante de Deus, e eis que conceberás», etc. Certamente que não seria idônea se alguma vez houvesse pecado, já porque a honra dos pais redunda nos filhos, e, ao contrário, redunda no filho a ignomínia da mãe; já pela singular afinidade da Virgem com Cristo, que d’Ela recebeu a carne, pois se diz na segunda aos Coríntios: «Que concórdia pode existir entre Cristo e Belial?»; já também porque, de modo singular, o Filho de Deus, que é a Sabedoria divina, habitou n’Ela, e não só em sua alma, como também em seu seio. E no [livro] da Sabedoria se diz: «A sabedoria não entrará na alma perversa nem habitará no corpo escravo do pecado».
“De sorte que absolutamente devemos dizer que a Bem-aventurada Virgem não cometeu nenhum pecado atual, nem mortal, nem venial, para que n’Ela se cumpra o que se lê no Cântico dos Cânticos:
«Sois toda formosa amiga minha, e não há em ti mancha alguma»”